Revista Fácil, março 2005

por José Campello Neto última modificação 02/07/2008 20:10

Diretamente de Brasília

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Carta ao Amigo

Estou convencido que existe uma grande deformação nos princípios que nortearam a criação das cidades. Antigamente a gente pensava que as cidade eram feitas para os homens, para os seres humanos. Tanto que os animais só entravam nela a serviço. Para o transporte de mercadorias e pessoas. Sem falar nos animais domésticos de estimação. Objetos, máquinas, utensílios e equipamentos urbanos, como se diz hoje em dia, eram todos voltados para o conforto humano. Eram peças que complementavam essa grande invenção, que é a cidade.

Os encanamentos e as fiações representam o auge, a tecnologia de ponta, que determina o conceito moderno de convivência urbana. Sem eles não se pode considerar nenhum aglomerado residencial como uma cidade. Quem inventou o esgotamentosanitário merecia um Prêmio Nobel! As ruas, as calçadas, as praças, os parques, os edifícios, tudo era construído para uso do cidadão. Sim, do cidadão, que, ao contrário do camponês habita o burgo, que virou cidade. Foi naquele espaço cultural que se passou a exercer um conjunto de direitos resumidos na palavra cidadania.

Na praça público exercia-se um dos mais fundamentais direitos do ser humano: o de reunião. Na praça também se “vagabundeava”. Na praça se namorava, se passeava, a gente se encontrava. Era o lugar dos encontros. Era lúdicos. Praticava-se esportes, lia-se. Mas tudo isso acabou.. Estamos em guerra e não há segurança nem nas ruas nem nas praças que nos permita sentar e olhar o tempo passar. E esses espaços foram sendo tomados ao homem. As calçadas viraram estacionamentos e pontos de comércio, que não é mais ambulante, é fixo. As praças viraram moradias ou valhacouto de vagabundos. Estão cercadas, gradeadas, não há bancos, não há jardins e não há mais nas cidades, nenhum cuidado para o deleite da visão. O uso do espaço urbano tornou-se pragmático. Hoje só se concebem as praças de alimentação dos “Shopping-Centers”. Ali há comércio.

Vieram os carros. E as ruas deixaram de servir de artérias para todos. Somente alguns abastados é que podem trafegar. Depois vieram os espigões quebrando a escala humana e apinhando os espaços além do saudável. Obstruíram as calçadas. E o caminhar livremente acabou. Lembra da expressão “errar pela cidade”? Quem ainda consegue? E finalmente veio a propaganda. Essa então é de matar. E foi aí que eu me dei conta de que o que havia mudado não fora a cidade. O que mudou foram os princípios que nortearam a construção desse habitat. As cidades deixaram de ser um espaço de cidadania. Transformaram-se num espaço mercadológico. E esse é o ambiente cultural dos dias de hoje. Basta ver pelas placas, pelos anúncios, pela utilização de cada metro quadrado. Imagine que em Brasília, onde se podia “dar pasto à vista”, como seus imensos espaços vazios, mas cheios de cerrado, cheios de vista, a nova concepção encheu de cartazes, placas, “out-doors”, não se consegue ver mais um palmo de verde. Não se consegue mais ver os monumentos architetônicos. Tudo está coberto de anúncios. Onde couber uma pessoa tem um cartaz ou tem reclame de algum produto. Onde couberem duas ou mais pessoas é imediatamente instalado um ponto de comércio. É para baratear o custo dos equipamentos, dizem os novos urbanistas. Para mim o que era para servir de proteção à lei da selva tornou-se um espaço de conflito.

 

 

Um forte abraço,

 

Campello

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José Campello Neto
Brasília - DF
Jornalista e advogado